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Maranduba, Quilombo, Mosteiro e Praia Deserta


Hipnose do Remo e Amigos Imaginários
Praia da Caçandoca, acessível só por estrada de terra ou pelo mar

Quando os portugueses invadiram o Brasil, eram os Tupinambás que viviam na região de Ubatuba. Essa tribo canibal – de exímios pescadores, guerreiros e remadores, que construíam canoas imensas, capazes de transportar até 80 pessoas de uma vez – foi dizimada pelas guerras, escravidão e doenças trazidas pelos europeus. Mas seus costumes foram eternizados, graças ao diário de um inimigo que ficou preso em uma de suas aldeias, em meados do século XVI. O alemão Hans Staden se livrou de virar comida dos indígenas e ainda conseguiu escapar do cativeiro, voltando para Europa e publicando suas memórias. O livro foi um sucesso imediato, gerando medo e fascínio no homem branco.

Devaneio

Quinhentos anos depois, cá estou eu, com minha prancha de epóxi e meu remo de carbono, percorrendo o mesmo litoral, observando as mesmas pedras na costa, circundando as mesmas ilhas, penínsulas e baías. Imagino como era a paisagem antes de 1500. Como seria cruzar o mar naquela época? Quão diferente seria o entorno? Haveriam mais peixes no mar? Golfinhos e tubarões estariam em todos os cantos? E as encostas dos morros, teriam mais árvores? Elas seriam maiores?

Quando a gente rema de Stand Up, a mente viaja mesmo e nem nos damos conta. Daí em diante só viajei mais e pensei também no inverso. E se alguém dos anos 1500 fosse transportado para Ubatuba dos dias atuais? O que acharia desse lugar? O que chamaria sua atenção?

Todas essas questões passaram pela minha cabeça na remada que fiz saindo da Praia da Maranduba. Essa é uma das praias mais frequentadas de Ubatuba, no litoral norte de São Paulo. A estrada passa ali ao lado e ela está sempre cheia de turistas. Tem quiosques de comida e bebida, vendedores ambulantes, guarda-sóis coloridos, cadeiras e mesas de plástico, homens de sunga, mulheres de biquíni, crianças lambuzadas de protetor solar e picolé derretido. Imaginei um indígena Tupinambá ou um negro escravizado remando ao meu lado. Como reagiriam?

Parque aquático flutuante
Balsa com tobogãs na Praia Da Maranduba

Entre a Praia da Maranduba e a Ilha da Maranduba, uma balsa-parque-aquático fica ancorada. O que os viajantes do tempo achariam dessa ilha de metal, coberta de escorregadores multicores? Se divertiriam descendo os tobogãs ou tentariam afundar essa gigante que claramente não faz parte da natureza? Confesso que eu mesmo fiquei na dúvida. Esse water park é uma aberração, uma poluição visual absurda. Pensando racionalmente, não hesito em desejar que seja mandado para longe dali. Por outro lado, com vergonha de admitir, sei que meu lado infantil se divertiria na brincadeira.

Parque aquático flutuante da Praia da Maranduba

Depois de explorar a balsa-parque por alguns minutos, continuei a remada até a única praia da Ilha da Maranduba. Duas pessoas estavam lá, tomando sol em suas cadeiras de praia. Logo em seguida, um barco de banana-boat (aquele que arrasta uma boia gigante onde meia dúzia de pessoas ficam montadas em fila) passou bem perto e mais uma vez lembrei dos amigos do século XVI. Acho que ficariam assustados só de ouvir o ruído do motor e a algazarra dos turistas animados.

Ilha da Maranduba, a 1 km da Praia da Maranduba, é uma boa remada pra quem tá começando
Mosteiro na Praia do Pulso

Voltei pra água e senti o vento soprando forte na minha frente. Tive que remar com mais potência para conseguir avançar. As ondulações também não estavam ajudando. Elas vinham grandes e deixavam a prancha instável. Pelo meu ombro direito, via a Praia do Pulso e, acima, o mosteiro do Arautos do Evangelho. Essa construção se destaca na paisagem, por causa do tamanho e pelo estilo, muito diferente de qualquer outra construção do litoral brasileiro. A história dessa seita também é de arrepiar. Ela foi fundada por João Scognamiglio Clá Dias, um dos principais articuladores da TFP (Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade), organização de extrema direita, envolta em ações nebulosas na religião e na política. O próprio Arautos do Evangelho foi investigado pelas autoridades brasileiras, depois de denúncias feitas por mais de quarenta pessoas, contando dos abusos psicológicos, humilhações e assédios. O programa Fantástico chegou a fazer uma matéria sobre o caso e a instituição se defendeu dizendo sofrer perseguição de ex-membros e que não havia provas das acusações. Porém, até o Vaticano abriu investigação, impressionado com vídeos que mostravam uma interpretação radical do evangelho na prática de exorcismos.

O mosteiro, também conhecido como Castelo Arautos dos Evangelho, e a Praia do Pulso ali embaixo

O mosteiro, que domina a paisagem, é mais um monumento que atesta a ação de aniquilação cultural e descaso ambiental que se iniciou em 1500 e segue até hoje. Se um indígena Tupinambá estivesse mesmo ao meu lado, provavelmente choraria ao constatar que seu povo não existe mais e que sua terra agora pertence aos inimigos.

Praia do Pulso, com a Ilha da Maranduba logo a frente

Aos trancos e barracos, consegui passar a ponta entre a Praia do Pulso e a Praia da Caçandoca. Segui afastado da areia, passando ao lado da Praia da Caçandoquinha e virei a próxima ponta, a caminho da Praia da Raposa.

Depois do mar agitado, a calmaria das areias da Praia do Pulso
Mar de Tartarugas

O mar estava bem agitado, com ondas laterais vindo dos dois lados. Elas chegavam do oceano à minha esquerda, batiam nas pedras à minha direita e voltavam. Caí algumas vezes na prancha e passei a remar ajoelhado. Avancei lentamente. Com isso, pude observar a enorme quantidade de tartarugas que afundavam e subiam para respirar. Eram tantas que cheguei a pensar que há quinhentos anos não devia ser muito diferente. Provavelmente tinha mais ou menos a mesma quantidade de tartarugas ali. Essa ideia me deixou feliz.

Chegando na Praia da Raposa, depois de passar por um mar de tartarugas
Praia da Raposa

Desembarquei na Praia da Raposa, completamente vazia. Em volta tudo era floresta. Lá não há construções. A única intervenção humana é um toco de madeira, pendurado por uma corda, que faz a função lúdica de balanço.

Balançando na Praia da Raposa

Balancei algumas vezes e caminhei de uma ponta a outra da praia. Entre as pedras, a faixa de areia tem pouco mais de cinquenta metros. É muito pequena. Provavelmente nunca foi ocupada por humanos. O morro atrás é íngreme e a Mata Atlântica é bem fechada. Olhei com mais atenção e reparei numa árvore imensa bem no meio da praia, um pouco para dentro na mata. Infelizmente não sei reconhecer as espécies, mas era evidente que se tratava de uma árvore muito antiga. Será que está lá desde a época do descobrimento? Teria uns quinhentos anos de vida? Improvável, né? Mas na história que estava sonhando, de viajantes no tempo, hipnotizado pelas remadas no Stand Up, fez sentido.

A densa Mata Atlântica que envolve a Praia da Raposa
Quilombo da Praia da Cacándoca

Subi novamente na prancha e comecei a remar, desviando das tartarugas. Passei pela ponta com mar revolto e entrei na baía, passando mais uma vez pela Caçandoquinha. Parei na Praia da Caçandoca, em frente a um dos quiosques. Sentei numa mesma virada para o mar e fiz dois pedidos. Queria uma porção de lula e alguém para me contar a história da praia. Logo acionaram a cozinheira para preparar a comida e chamaram o primo do dono do quiosque, o Mário, para conversar comigo.

O famoso Mário do Quilombo da Caçandoca que me contou tudo sobre o passado e o presente da região

Como já tinha ido algumas vezes à Praia da Caçandoca, sabia que ali é um quilombo, mas queria entender mais e o Mário foi a pessoa perfeita para explicar tudo. Ele nasceu na vizinha Praia do Pulso e é um dos líderes da comunidade. Mantém um perfil no Instagram e uma página no Facebook para divulgar os acontecimentos marcantes da região, falando do passado, presente e ajudando a montar o futuro. As ações conjuntas dos moradores do quilombo cuidam, entre outras coisas, da manutenção da estrada de terra, do saneamento das moradias, da distribuição de água e da coleta de lixo.

Praia da Caçandoca, com as poucas casas dos quilombolas

De acordo com o relato que Mario me deu, o registro documental mais antigo de ocupação daquela região é de1850. Nos títulos de posse, consta que o português José Antunes de Sá era o proprietário da área que vai da Praia do Pulso até o outro lado da península, na Praia da Lagoa. Certamente essas praias já eram ocupadas por portugueses antes dessa data, mas os documentos se perderem com o tempo. De qualquer modo, o registro é de uma fazenda de produção de café e cana de açúcar. Entretanto, Mario especula que a fazenda devia ser, na verdade, um entreposto do comércio de escravos. Ubatuba nunca foi grande produtora desses insumos. Provavelmente os escravos chegavam diretamente do continente africano, eram “engordados” e depois vendidos para as fazendas do Vale do Paraíba, essas sim, consagradas produtoras de café e cana.

Praça central da vila da comunidade

Os negros que conseguiam escapar da fazenda, entravam no mato e se viravam como conseguiam. Com a abolição da escravatura, a fazenda foi desmantelada e muitos ex-escravizados ficaram por ali também. Por muitos anos viveram de subsistência e da produção de mandioca e banana. Depois da ampliação da BR-101, em 1974, a área se valorizou e os moradores locais foram expulsos, mas em 1997, descendentes voltaram para a região, iniciando uma disputa jurídica que só teve fim com o reconhecimento da comunidade como remanescente de quilombo (aliás, esse é o único quilombo reconhecido em uma praia, no Brasil). Os moradores da comunidade não podem construir casas novas e ainda vivem em moradias de pau-a-pique, por causa das regras ambientas.

Vista aérea da único quilombo em frente ao mar do Brasil

Depois dessa aula que o Mario me deu, fiz o caminho de volta um pouco mais otimista. Lembrei do negro escravizado que tinha imaginado durante todo o percurso e pensei no que ele acharia disso tudo. Com certeza ficaria estarrecido com as diferenças sociais entre brancos e negros, a desigualdade de oportunidades, o preconceito e a violência que a juventude negra ainda é submetida. Mas atitudes como essa, da demarcação das terras quilombolas, lentamente diminuem a dívida histórica que temos com essa população. Que venham mais ações nesse sentido!

Mapa da travessia de SUP em Ubatuba
DADOS DA TRAVESSIA DE SUP EM UBATUBA

Distância = 10,08 km

Tempo = 1 hora e 49 minutos

*esse é apenas o tempo de remada

Cidade = Ubatuba, SP

ALUGUEL DE PRANCHA DE STAND UP EM MARANDUBA

Há quiosques de aluguel de prancha de SUP na praia

COMO CHEGAR NA PRAIA DA MARANDUBA

A Parai da Maranduba é umas das primeiras de Ubatuba, vindo de Caraguatatuba. A estrada BR-101 (Rio-Santos) passa ao lado de toda extensão dela na altura do KM 77.

COMO CHEGAR NA PRAIA DA CAÇANDOCA

Como sempre, a melhor maneira de chegar é remando de Stand Up Paddle. A distância, saindo da Praia da Maranduba, pelo mar, é de aproximadamente 3 km.

Se não quiser remar, dá pra chegar de carro, pegando uma estradinha de terra que também passa pela Praia do Pulso.

COMO CHEGAR NA PRAIA DA RAPOSA

Também recomendo ir remando. Na Praia da Raposa não chega carro. Mas você pode ir de carro até a Caçandoca e de lá pegar uma trilha que vai até a Praia da Raposa.

Texto e fotos: Daniel Aratangy

Fontes:

https://pt.wikipedia.org/wiki/Tradi%C3%A7%C3%A3o,_Fam%C3%ADlia_e_Propriedade
https://pt.wikipedia.org/wiki/Arautos_do_Evangelho
http://estadodacultura.sp.gov.br/espaco/972/

2 Responses

  1. Nossa, fazia anos que não vinha aqui. Lembrei que cheguei procurando sobre a Ilha das Couves. E aqui estou eu, lendo suas aventuras e olhando as fotos, me sentindo tão confortável quando penso em morar em um lugar assim. Beira-mar, sem quase nada, só areia, mar e a imensidade da água …. melhor sair daqui kkk

    Obrigada por compartilhar suas “aventuras”!!

    1. Haha, boa! Dá vontade mesmo né? Ainda mais nessa pandemia. Obrigado por acompanhar e pelo incentivo.
      Abraço e boas aventuras para você também!

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