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Praia do Sono
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Remando com os Índios Tupinambás

Uma aventura antropofágica

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Carregando a prancha de Stand Up Paddle na praia deserta de Antiguinhos, no litoral sul Fluminense
Em pé na prancha de Stand Up, parei de remar antes da Praia de Antiguinhos, um dos lugares mais isolados do litoral brasileiro. Tinha visto uma tartaruga com mais de um metro de comprimento e comecei a prestar mais atenção na paisagem. Em volta da areia e sobre as pedras a floresta era muito densa. Só ouvia o som das ondas e os pássaros cantando. Nenhuma pessoa por perto. Nenhuma construção. Deitei na prancha e imaginei o que aconteceria se eu entrasse num túnel do tempo e fosse transportado para 500 anos atrás… Incrivelmente nada, pensei. O cenário seria exatamente o que estava na minha frente. Só, talvez, algum índio Tupinambá apareceria em cima de uma pedra com seu arco e flecha apontados para mim.
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Comunidade caiçara na Praia da Ponta Negra

 

Eu remaria com força em direção ao oceano, tentando escapar. Mas o índio me acertaria em cheio na perna, me deixando incapaz de seguir em frente. Ele correria até a praia para chamar os amigos. De longe eu veria os corpos morenos de sol pintados de vermelho e preto, e os cabelos raspados no alto.
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SUP na Praia de Antiguinhos

 

Os índios empurrariam uma canoa feita da casca de uma árvore até a água e viriam me buscar. Ao se aproximarem, eu poderia ver os rostos deles com pedras pendendo de buracos abaixo da boca e nas bochechas. Em volta do pescoço haveria colares feitos de conchas. Penas vermelhas enfeitariam a cabeça e os braços.
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Praia de Antigos, no litoral sul de Paraty, no estado do Rio de Janeiro

 

Chegariam gritando na língua Tupi (que eu não entendo), mas deixariam bem claro que me levariam para ser comido num ritual antropofágico. Fazendo mímicas, morderiam os próprios braços enquanto olhavam para mim, com um sorriso sádico no canto da boca.
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Índios Tupinambás se alimentando de carne humana, em xilogravura do século XVI de autor desconhecido
 
Rindo dos meus próprios pensamentos, levantei da prancha e continuei a travessia de SUP. Naquele dia, tinha acordado bem cedo em Ubatuba-SP, dirigido até o município de Paraty-RJ e pegado uma pequena estrada que leva à vila de Trindade. No caminho desviei para o Condomínio Laranjeiras. Dentro da Área de Proteção Ambiental Cairuçu e ao lado da Reserva Ecológica Juatinga, ele foi construído na década de 1970, tem campos de golfe, heliponto com estacionamento para vários helicópteros, fitness center, quadras de tênis, restaurantes, etc.
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Praia de Antigos, entre Antiguinhos e Praia do Sono
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Trilha na Praia de Antigos, piscina natural e a turma de Brasília fazendo escalada

 

Passei pela primeira portaria falando que iria à Praia da Ponta Negra, sem problemas. Na segunda, já informaram que apenas condôminos são autorizados a entrar. Para seguir às outras praias (por trilha ou mar) teria que pegar a Kombi do próprio condomínio até uma área cercada e guardada por um segurança enorme, tipo halterofilista.
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Praia do Sono, ao lado do condomínio Laranjeiras, em Paraty-RJ

 

O motorista disse que não era autorizado a transportar pranchas e tive que insistir muito até conseguir a liberação. Dentro do cercadinho, esperei o barqueiro Mizael (telefone 024-99222-9880), que não chegou no horário combinado, mas me levou rapidamente à Praia da Ponta Negra, pequena comunidade de pescadores onde comecei a travessia.
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Cenas da vila da Praia do Sono: janela de restaurante, casa de moradores, e canoas de pesca

 

Com vento favorável em quase todo o trajeto, continuei para as praias de Antiguinhos, Antigos, Sono e de volta a Laranjeiras. Em Antiguinhos me senti tão sortudo de estar sozinho naquele lugar deslumbrante, que alucinei com os índios Tupinambás.
Depois, em Antigos, tive dificuldades para desembarcar. As ondas quebravam forte, mesmo no canto esquerdo, mais protegido, perto das pedras. Acabei caindo da prancha onde já dava pé, mas a correnteza era tão forte que precisei subir de novo e remar mais um pouco de joelhos até chegar na praia. Lá havia dois grupos pequenos de turistas. Acabei conversando com uma turma de Brasília que estava hospedada em Trindade e tinha vindo pela trilha.
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Vista da trilha entre a Praia de Antigos e a Praia do Sono

 

Voltei pra água e aproveitei um curto momento de ondas menores para atravessar a rebentação. Segui até a Praia do Sono, uma comunidade caiçara de 500 habitantes no pé do Pico Barracão (ou Pedra da Jamanta) com 1098m de altitude, a maior montanha da região. Almocei um PF de peixe e fiz metade da trilha que leva à Praia de Antigos, para ver a vista de cima.
Desci, peguei a prancha de SUP e voltei remando até o cercadinho no condomínio Laranjeiras. Enquanto esperava a Kombi, o segurança musculoso falou que eu era louco de fazer aquela travessia, que era muito perigosa. Eu dei risada pensando como os moradores da região mudaram de 500 anos pra cá!
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Mapa da travessia de SUP: Praia da Ponta Negra ao condomínio Laranjeiras

 

Distância = 13,5 km
Duração = 2 horas e 30 minutos
Vento = fraco, a favor
Ondas = médias, laterais
Cidade = Paraty, Rio de Janeiro
Texto e fotos: Daniel Pluk
Agradecimento: Hans Staden

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